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Pesquisa investiga segurança, bem-estar e autocuidado entre profissionais da saúde

Crédito: Bruno Todeschini/ PUCRS

O núcleo de pesquisa HFACTORS iniciou um projeto com profissionais da área da saúde em Porto Alegre. O objetivo é identificar questões relacionadas a bem-estar, saúde mental e segurança a partir da percepção desses profissionais, que estão entre os que mais sofrem de esgotamento no ambiente de trabalho. 

Apesar de não haver perguntas relacionadas à pandemia de Covid-19, os resultados do estudo deverão ser impactados por esse contexto e mostrar, de alguma forma, como essa área foi afetada. A meta é que aproximadamente 500 pessoas do setor da saúde, que atuem em hospitais, respondam a questionário com uma série de variáveis, como liderança, carreira e autocuidado. A pesquisa inicia sendo aplicada com os funcionários do Ernesto Dornelles, em um segundo momento sendo aplicada no Hospital São Lucas da PUCRS e posteriormente ampliada para outras instituições hospitalares da Capital. 

“Essa pesquisa está sendo realizada justamente em um momento de pandemia que é um importante estressor. É um momento histórico que estamos vivendo, de imprevistos e de incertezas”, observa uma das pesquisadoras envolvidas Maria Isabel Barros Bellini, que é professora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUCRS

Segundo a pós-doutoranda do HFACTORS Fernanda Xavier Arena, os profissionais da saúde já têm um índice elevado de esgotamento. “A pandemia aumentou ainda mais o sofrimento”, acrescenta. 

Nesse sentido, a pesquisa também observará a presença de práticas de autocuidado, as quais servem de estratégia para lidar com o estresse causado pelo trabalho. Uma revisão de pesquisas sobre o assunto mostrou que atividades de lazer, esporte, atenção plena e meditação, por exemplo, reduzem o risco de desenvolvimento da síndrome de Burnout, que o esgotamento decorrente de estresse crônico no local de trabalho, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)

As pesquisadoras consideram que, durante a pandemia, alguns espaços que funcionavam como locais de interação, atividades e lazer foram fechados, o que contribuiu processos de sofrimento e isolamento. “Com o agravamento dos sintomas, vem a importância do autocuidado como uma das formas de enfrentamento”, ressalta Bellini. 

De forma geral, o estudo trará um panorama, a partir de múltiplas variáveis, sobre a relação dos trabalhadores com o seu trabalho. “Queremos entender um pouco mais a relação que os trabalhadores têm com seu trabalho e sobre o próprio contexto desse ambiente e desse trabalho realizado”, explica a doutoranda Daniela Boucinha, psicóloga que também faz parte da equipe. 

A pesquisadora informou que o objetivo é também investigar a influência que a liderança exerce sobre as questões relacionadas a bem-estar, saúde mental e segurança. “Queremos saber da relação entre líderes e liderados”, disse Boucinha. 

Entre os benefícios da pesquisa, Arena, que é assistente social e tem doutorado em Psicologia, observa que, a partir do conhecimento das percepções dos trabalhadores, é possível elaborar alternativas. Segundo ela, o conhecimento das condições de trabalho auxilia no aprimoramento das práticas de autocuidado, o que também impacta na melhoria das condições de trabalho na otimização do atendimento prestado. 

A pesquisa conta ainda com a professora de Psicologia da PUCRS Manoela Ziebell de Oliveira e com a pós-doutoranda Lidiany de Lima Cavalcante e tem característica interdisciplinar. O grupo de trabalho se ampara na experiência de projetos desenvolvidos desde 2014 com abordagem de Fatores Humanos e Engenharia de Resiliência no setor de óleo e gás. Por demanda externa, agora expande sua atuação para o segmento da saúde. 

Sobre o HFACTORS 

O Human Factors and Resilience Research (HFACTORS) é núcleo vinculado à Escola Politécnica da PUCRS, em parceria com a Escola de Negócios, formado por profissionais de diferentes formações, como Engenharia de Resiliência, Sociologia, Serviço Social, Psicologia, Engenharia, Mídia e Gestão do Conhecimento. A equipe estuda e desenvolvendo soluções, principalmente de segurança, em sistemas sociotécnicos complexos. O que vincula todos os pesquisadores do núcleo é a abordagem de Fatores Humanos a qual observa a interação do homem com o ambiente de trabalho, incluindo os fatores ambientais e organizacionais. A Coordenação Geral do HFACTORS está sob a responsabilidade do Prof. Dr. Eduardo Giugliani.

Abordagem de Fatores Humanos contribui para abrangência de pesquisas

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Fatores Humanos são condições que influenciam o comportamento no trabalho, afetando, além do desempenho, a segurança e a saúde do trabalhador. Entretanto, este é um conceito que vai muito além disso e possibilita tanto o estudo como a aplicação em diferentes atividades do dia a dia. 

A equipe do núcleo de pesquisa HFACTORS tem usado os fundamentos desse conceito como base para estudar e desenvolver soluções no fortalecimento da cultura de segurança em sistemas sociotécnicos complexos. Um dos seus integrantes, o decano da Escola de Negócios da PUCRS, Éder Heriqson, explica que Fatores Humanos é uma forte abordagem interdisciplinar que observa a relação interativa entre as pessoas e os sistemas que os cercam, buscando compreender, o condicionamento dos desempenhos.

A professora da Escola de Humanidades da PUCRS Inês Amaro da Silva, que também é pesquisadora do HFACTORS, afirma que Fatores Humanos se expressa na interação do homem com o ambiente de trabalho, incluindo os fatores ambientais e organizacionais. “São as características individuais e humanas, as quais influenciam no comportamento no trabalho de forma a afetar a segurança”, resume.  

Ainda conforme a professora, Fatores Humanos aparece frequentemente relacionado com resiliência em pesquisas científicas, especialmente quando se observa as estratégias usadas pelos trabalhadores para lidar com as adversidades.

Resiliência em Fatores Humanos 

O conceito de resiliência está relacionado à capacidade do indivíduo em lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. Mas qual a relação de resiliência e Fatores Humanos? Para Heriqson, pensar nesses conceitos em uma atuação mútua pode ser vantajoso em diversos sentidos: 

“A resiliência em Fatores Humanos orienta-se como uma abordagem sistêmica de estudo dos condicionantes da performance humana e das capacidades de concretização de respostas frente aos enfrentamentos emergentes de residuais de incerteza e risco”, afirma. Isso é visto ainda promovendo habilidades não-técnicas, tais como a tomada de decisão, a coordenação e a liderança para o gerenciamento de erros e ameaças.

Fatores Humanos no ambiente de trabalho 

A partir do conceito já identificado do termo Fatores Humanos, precisamos entender a real importância de fomentar e desenvolver projetos de pesquisa e desenvolvimento nessa área para o mercado de trabalho. “Considerando a natureza interdisciplinar de Fatores Humanos, o olhar das Ciências Humanas, e mais especificamente do Serviço Social,  privilegiamos a visão da totalidade do processo e das relações de trabalho para a efetividade da segurança”, descreve Amaro da Silva.

As novas abordagens de estudos vinculados às realidades de ambientes de trabalho com operações complexas e de alto risco buscam identificar elementos que contribuam para construir, aprimorar e/ou consolidar uma cultura de segurança no trabalho. Tudo isso visando a diminuição de exposições ao risco, prevenção de acidentes e proteção aos trabalhadores.

HFACTORS e Fatores Humanos 

O HFACTORS (Human Factors and Resilience Research) é originado de um grupo de profissionais e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, que vêm estudando maneiras de aplicar Fatores Humanos em ambientes de trabalho de risco, a partir de projetos de P&D. Dessa forma, busca criar uma cultura de segurança fortificada, principalmente na indústria de óleo e gás.