GESTÃO DO CONHECIMENTO: Indicadores podem auxiliar na melhoria dos sistemas

O conhecimento pode estar vinculado ao homem, aos processos e às máquinas. Estudado como matéria-prima para auxiliar estratégias organizacionais, esse recurso é foco de uma área de pesquisa chamada Gestão do Conhecimento, a qual faz parte do núcleo HFACTORS.

Segundo o professor Paulo Selig, o trabalho utilizando essa perspectiva está voltado para indicadores intangíveis, relacionados aos indivíduos, que são primordiais para as eventuais melhorias em sistemas complexos. “Queremos entender como acontecem as inter-relações entre pessoas, empresas e sociedade e que tipos de intervenções podemos fazer para melhorar os processos”, ressalta.

Selig explica que as organizações são analisadas em três grandes aspectos: capital humano, capital estrutural e capital relacional. O capital humano envolve capacidades de competência; o estrutural diz respeito aos processos dentro da empresa, conhecimentos que já estão estabelecidos e são potenciais de referência; já o capital relacional inclui as relações de clientes e fornecedores até com a sociedade.

“Esses três devem estar equilibrados. Procuramos entender onde estão os pontos fracos e aplicamos medidas de mitigação. Ao mesmo tempo, fazemos melhorias dos pontos fortes”, complementa. Determinando o estado atual da organização, é possível criar metas e ações para, futuramente, ter um ganho de capitais intelectuais.

São observados aspectos como armazenagem e compartilhamento do conhecimento. “O foco é tentar entender esse bem intangível tão importante nas épocas atuais e como fazer e a gestão, a estratégia e a disseminação”, explica.

Enquanto a Gestão do Conhecimento observa os processos organizacionais, a administração de pessoas e de tecnologias, a Engenharia do Conhecimento serve como um instrumento para realizar a condução, criando formas de utilizar os recursos com determinada finalidade. Essas duas áreas fazem parte do núcleo HFACTORS assim como outras disciplinas, que atuam de forma interdisciplinar em pesquisas de Fatores Humanos.

ENGENHARIA DE RESILIÊNCIA: Gerência de incertezas para garantir sistemas mais seguros

Por mais que as operações em sistemas sociotécnicos complexos sejam controladas, existem residuais de incertezas que podem resultar em falhas e até em acidentes. A Engenharia de Resiliência, que é uma disciplina relativamente nova, se ocupa dos estudos sobre a capacidade de enfrentamento dos riscos imprevistos. Segundo o decano da Escola de Negócios e coordenador científico do núcleo HFACTORS, Éder Henriqson, a resiliência é tratada como a capacidade dos sistemas sociotécnicos e organizacionais de desarmar, de recuperar e de adaptar frente a situações desafiadoras. Além disso, aprender enquanto sustenta uma transformação em situações desafiantes e gerir a incerteza são outras características de uma operação ou de um conjunto de operações resilientes.

“A Engenharia de Resiliência estuda basicamente como projetar, gerenciar e avaliar os potenciais de resiliência em sistemas sociotécnicos complexos, que são especificamente organizações que dependem de alta confiabilidade nas suas operações, que lidam com a gestão do risco enquanto um componente crítico”, explica. Entre esses setores, estão indústrias como a de aviação, de óleo e gás e de saúde.

Desde 2005, os estudos dessa área têm crescido e dentre as aplicações estão o uso de tecnologia para dar suporte ao enfrentamento, prevenção, desarme e recuperação durante situações críticas e qualquer distúrbio que as operações de um sistema sofram. Isso tem o objetivo de garantir a continuidade eficiente e segura das atividades. As pesquisas têm focado também na análise de infraestruturas críticas e suporte à transformação digital das organizações.

Tolerância ao erro

A perspectiva da Engenharia de Resiliência também é usada para criar tecnologias tolerantes aos erros e com condições de superar as falhas. Ao mesmo tempo, é possível desenhar operações em que os times possam antecipar e contornar o risco. “Procuramos desenvolver repertórios e capacidades para as equipes superarem os desafios”, observa Henriqson. A ideia é identificar capacidades, habilidades e competências e fazer protocolos de treinamento, de desenvolvimento, de educação e de formação para otimizar o trabalho.

Como forte campo interdisciplinar, a Engenharia de Resiliência está apoiada em várias disciplinas como a Sociologia, a Gestão do Conhecimento, a Administração e a Psicologia. “Fundamentalmente, precisamos de diferentes perspectivas teóricas que nos ajudem a entender a complexidade dessas interações sociotécnicas”, afirma o professor. 

Colaboração entre áreas

As outras áreas podem ainda emprestar modelos e métodos adequados para a compreensão da dimensão técnica, da social e dos processos interativos. Dentro do núcleo HFACTORS, a Engenharia de Resiliência é uma das áreas de pesquisa que atua com a colaboração de outras para promover segurança e eficiência operacional, incorporando e pesquisando novas abordagens no estudo dos Fatores Humanos.

Para assistir ao vídeo completo do professor falando sobre Engenharia de Resiliência, acesso o nosso canal no YouTube.


ENGENHARIA DO CONHECIMENTO: Pesquisadores identificam conhecimentos para análise de potencial de resiliência

Considerando as diversas aplicações da Engenharia e Gestão do Conhecimento, o uso dessa área de pesquisa com uma perspectiva de Fatores Humanos e Resiliência tem o objetivo de compreender qual o conhecimento habilita as equipes a agirem frente às situações inesperadas. No núcleo HFACTORS, que estuda sistemas complexos, esse entendimento orienta estratégias de preservação do conhecimento e de promoção da aprendizagem organizacional, por exemplo.

“Todo o conhecimento que vai fazer com que a equipe consiga entender que, eventualmente, as circunstâncias mudaram, os motivos da mudança e que habilitem as pessoas a projetar o estado futuro do sistema para que seja possível antecipar e desarmar eventos de segurança”, descreve o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Denilson Sell, que é doutor em Engenharia de Produção e atua no HFACTORS. Na mesma linha, aqueles conhecimentos que habilitem a implementação de respostas frente aos eventos inesperados são determinantes para as respostas resilientes.

“Também nos é bastante importante entender as possíveis fontes e razões de perda e de desperdício de conhecimento na organização”, ressaltou. Segundo o professor, muitas vezes, lições provenientes de acidentes, por exemplo, são perdidas e um evento semelhante pode voltar a acontecer.

Em uma pesquisa, a disciplina costuma capturar pistas do cotidiano do trabalho e extrair conhecimento. “Quando falamos em pistas, estamos tentando entender quais são esses fatores que condicionam o trabalho resiliente e seguro”, ressalta.  Identificadas essas informações, é possível estabelecer indicadores de tendências. “A gente trabalha com os elementos ligados a fatores individuais, organizacionais e ao desenho do trabalho”, diz.

A partir daí, é possível analisar os fatores positivos, negativos e aqueles que possam conferir segurança às operações ou comprometer a segurança no futuro, possibilitando um olhar pró-ativo sobre o sistema. A gestão dos pontos positivos que garantam atividades mais seguras e também a antecipação de potenciais riscos, considerando diferentes fontes de dados, incluindo as percepções dos trabalhadores e da liderança, podem subsidiar intervenções assertivas para a promoção do potencial de resiliência e da segurança.

Essa Engenharia empresta ferramentas e métodos para extrair conhecimentos sobre dados diversos, como relatórios de acidentes e de investigação de acidentes, por exemplo. “Trabalhamos com técnicas de inteligência artificial para poder minerar documentos e relatórios e extrair aqueles elementos latentes que contribuíram, de certa forma, para uma ocorrência.”

Com a visão da engenharia e gestão do conhecimento, os pesquisadores buscam ainda entender de que forma o fluxo da informação e do conhecimento ocorre, ajudando as equipes a terem melhor consciência do que vem acontecendo e as suas falhas, que podem causar algum tipo de variabilidade e pode afetar o desempenho da operação e produzir elementos de risco.

Engenharia e Gestão do Conhecimento são duas áreas complementares que, no núcleo HFACTORS, têm o objetivo de qualificar o trabalho de organizações por meio de ferramentas e conteúdos de diferentes disciplinas.

Assista ao vídeo do professor Sell falando sobre o assunto no nosso canal no YouTube.

PSICOLOGIA: Desempenho pode ser melhorado a partir do conhecimento do papel dos trabalhadores

Em estudos de Fatores Humanos no ambiente de trabalho, o campo da Psicologia pode contribuir, especialmente, na compreensão do papel dos colaboradores e na promoção de cultura e de clima de segurança. “Existe toda uma área de concentração dentro da disciplina que investiga os indivíduos nas organizações e de que forma eles, os seus líderes e a própria organização podem buscar certos resultados pensando no desempenho e nas suas entregas”, explica a professora da PUCRS e pesquisadora do HFACTORS Manoela Ziebell de Oliveira.

Em um sistema sociotécnico complexo, essa área de conhecimento ajuda a entender o que leva as pessoas a adotarem comportamentos de segurança e a promover um clima de menor risco. Segundo a doutora em Psicologia, o clima de segurança trata-se de cognições compartilhadas entre as pessoas de que é mais importante ter segurança no trabalho do que a performance.

Cultura de segurança

Da mesma forma, a Psicologia investiga a maneira como a cultura de segurança está presente no ambiente e, caso não esteja da maneira esperada, pode auxiliar na incorporação de atitudes e envolvimento dos participantes daquele meio. O objetivo é que a organização se preocupe em desenvolver um contexto de trabalho seguro combinado com os resultados positivos para o negócio.

“A Psicologia pode atuar tanto no caráter mais preventivo antes de a gente perceber que não existe uma cultura de segurança, quanto num caráter de promoção de mudança para que a gente consiga alcançar essa cultura e ter uma cognição compartilhada de que isso é importante”, descreve.

Desenvolvimento de lideranças

Dentre as diferentes estratégias metodológicas utilizadas pela Psicologia, os instrumentos psicométricos avaliam variáveis relacionadas a crenças, comportamentos e atitudes das pessoas com relação a várias temáticas. Uma das áreas de investigação da Psicologia Organizacional e do Trabalho é o desenvolvimento das lideranças e o papel delas em diferentes desfechos.

“Todos os elementos que a Psicologia estuda estão ligados a Fatores Humanos. A liderança e a comunicação, por exemplo, são aspectos que são foco de estudos em diferentes áreas e vertentes dessa área de conhecimento”, conclui.

A Psicologia é uma das áreas de pesquisa do núcleo HFACTORS, que conta também com Sociologia, Engenharia e Gestão do Conhecimento, Serviço Social e Engenharia de Resiliência, entre outras. As equipes trabalham em conjunto para promover a segurança com a perspectiva de Fatores Humanos.

Confira o vídeo da professora Manoela Ziebell de Oliveira sobre o assunto.

SERVIÇO SOCIAL: Contradições, fatores de risco e de proteção em estudos sobre trabalho

Inês Amaro é coordenadora do grupo de Serviço Social do HFACTORS

Como profissão, o Serviço Social tem o objetivo de pesquisar e intervir na realidade social e suas contradições. A disciplina se ocupa, no campo do trabalho, do sujeito e suas relações, dos impactos e dos produtos, muitas vezes expressos em desigualdades.

“Nosso objeto de intervenção e de estudo são as expressões da questão social e, historicamente, temos uma trajetória relacionada ao campo do trabalho e, neste caso da segurança, no e do trabalho”, observa a professora de Serviço Social da PUCRS e integrante do núcleo HFACTORS Inês Amaro da Silva. 

Desde a década de 1980, existem produções científicas sobre a atuação do Serviço Social na área organizacional, investigando, entre várias temáticas, a questão da saúde e da segurança no trabalho em instituições públicas e privadas. “Temos muitas pesquisas nesse campo e a intervenção com a presença de assistentes sociais dentro de empresas, atuando não só na questão da saúde e na segurança ocupacional, mas também na qualidade de vida no trabalho, cidadania e responsabilidade social empresarial”, ressalta a pesquisadora que é doutora em Educação. 

Fatores Humanos

Mais recentemente, essa atenção acompanhou a evolução no campo da segurança operacional para a perspectiva de Fatores Humanos, em que a dimensão social e a relacional do trabalho passaram a ser incorporadas à maneira de olhar para os mais variados temas da complexidade organizacional e dos fatores relacionados à proteção e riscos. “Na relação entre homem, trabalho e seus artefatos gerados, nós vamos atuar no que chamamos de dimensão social do trabalho e as relações com o sujeito no contexto laboral, familiar e social mais amplo”, descreve a professora. 

Essa área de pesquisa procura compreender os impactos das relações que se constroem no ambiente e também quais são as condições em que as atividades ocorrem. A intervenção é pensada para criar condições mais favoráveis para o desenvolvimento humano e social e de relações democráticas que envolvam participação, autonomia e acesso a direitos. “Tem a ver com os nossos princípios éticos e a nossa metodologia de intervenção”, explica. 

Em um projeto de pesquisa de Fatores Humanos, combinado com outras disciplinas, como ocorre no núcleo HFACTORS, o Serviço Social tem o papel de desvelar as condições e os modos de vida no trabalho, a partir de algumas categorias, incluindo, por exemplo, comunicação, participação, gestão democrática, entre outras. Também se ocupa dos fatores de risco e de proteção presentes nas organizações. 

Confira o vídeo da professora Inês Amaro da Silva falando sobre o assunto.


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Artigo mostra processo decisório descentralizado na aviação

Um estudo realizado pelos pesquisadores do HFACTORS Eder Henriqson e Lucas Bertelli Fogaça mostra que as decisões tomadas nas operações de voo não são centralizadas e, sim, distribuídas em várias áreas. Portanto, a resiliência do sistema depende da combinação dos repertórios dos diferentes integrantes e não só de uma figura, como o operador de voo.

O artigo, que acaba de ser publicado no Journal of Cognitive Engineering and Decision Making e conta com Guido Carim Jr e Felipe Lando, apresenta dados sobre o processo decisório na área da aviação. Segundo Fogaça, as companhias aéreas operam em um ambiente altamente variável que interfere na malha de voos, sendo o Centro de Controle de Operações (CCO) a principal estrutura responsável por garantir operações tranquilas e rentáveis.

O pesquisador explica que, até então, os estudos sugeriam que as decisões eram centralizadas no coordenador de voo, um figura central em um CCO, porém, o trabalho do qual participa aponta que, além desse personagem, outros fazem a diferença:


1) o processo decisório é distribuído e descentralizado em várias áreas e não concentrado na figura do Coordenador de Voo;
2) especialistas de cada área estão constantemente e ativamente procurando sinais de interrupção enquanto monitoram a operação normal e reequilibram os recursos;
3) especialistas da área contam com um repertório de estratégias para implantar soluções inovadoras em cenários dinâmicos;
4) a resiliência do sistema frente às interrupções emerge da combinação dos repertórios dos diferentes integrantes (decisores) do CCO.

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Cultura Justa: responsabilidade compartilhada para garantir aprendizado nas organizações

Crédito: Unsplash

Os processos de gestão, de administração e também as condutas esperadas dos membros de uma determinada organização fazem parte de uma cultura local, a qual rege boa parte das dinâmicas nos ambientes de trabalho. Quando as práticas são pautadas por um sistema de responsabilidade compartilhada entre os trabalhadores, os reguladores e a gestão, procurando gerar aprendizado, confiança e cooperação, isso é chamado de cultura justa.

As pesquisadoras da equipe do Serviço Social do núcleo HFACTORS Beatriz Gersheson, Kathiana Arend e Inês Amaro explicam que esse conceito tem relação com a maneira que os sistemas respondem aos comportamentos de seus colaboradores. Se algo “dá errado”, por exemplo, o objetivo é aprender por meio da participação e da compreensão das atividades e responsabilidades.

A cultura justa engloba uma ampla gama de situações em que seus princípios podem ser considerados e aplicados para a melhoria de todos os processos organizacionais, segundo as pesquisadoras. Elas entendem que, para se chegar a um modelo de cultura justa, é necessária a participação dos envolvidos na organização. Uma das ações é a transformação da comunicação para evitar assimetrias de poder e, assim, reduzir também práticas retributivas, com objetivo de punição.

As práticas devem ser orientadas por processos democráticos e de responsabilização, ainda de acordo com a equipe do Serviço Social. Implica que haja, necessariamente, uma mudança de olhar e das perguntas que movem os processos.

Segurança organizacional

À medida em que a cultura de segurança das organizações incorpora esta racionalidade, o foco passa a ser nas necessidades e na obrigação em seguir uma abordagem colaborativa entre as pessoas direta e indiretamente afetadas por um incidente que causou ou possa causar dano. Para as pesquisadoras, esta é a base da mudança.  

A aposta em uma cultura justa restaurativa – que visa a reparação dos danos e responsabilização dos atos – oferece a possibilidade de ampliação da segurança nas organizações, fortalecendo a atuação dos trabalhadores. Eles podem participar ativamente do monitoramento do local de trabalho e estar envolvidos nos esforços para a melhoria da segurança organizacional.

Mobiliza ainda uma infraestrutura de aprendizagem contínua para prevenir a exclusão nas relações de trabalho, orientando-se por processos justos e inclusivos, intimamente associados à qualidade de interação e comunicação nas relações de trabalho. Assim, são cultivados espaços em que os trabalhadores possam ser ouvidos e tratados com respeito

O processo para consolidação da cultura justa ainda deve contar com aprendizagem coletiva e colaborativa, rompendo com os processos restritivos à culpabilização e à penalização. Da mesma forma, as assistentes sociais observam importantes a educação corporativa com o objetivo de desenvolver a liderança e a comunicação em nível interpessoal e intergrupal. Tudo isso privilegia a construção de competências comportamentais como escuta ativa, empatia, confiança e trabalho em equipe.

SOCIOLOGIA: Contextualização para entendimento dos fenômenos

Hermílio Santos é coordenador da área de Sociologia do HFACTORS

Com foco no entendimento dos fenômenos sociais, a Sociologia historicamente busca elementos de outras áreas do conhecimento para criar teorias e compreender a organização da sociedade e suas variações. “A origem é de várias áreas das ciências humanas e tem participado de pesquisas interdisciplinares, o que enriquece ainda mais os resultados”, afirma o professor da PUCRS Hermílio Santos, que faz parte do núcleo HFACTORS.

Dentre as principais tarefas de um sociólogo, está a contextualização dos sujeitos. “Situamos os indivíduos e a análise transborda o ambiente concreto, porque as vivências não se encerram em si. Elas têm um histórico”, explica o sociólogo, que é doutor em Ciência Política e tem em sua formação áreas como a Filosofia. 

Diagnóstico de campo

Atuando no ambiente de trabalho, em atividades de risco, Santos observa a importância da Sociologia Interpretativa para o diagnóstico de campo e também para a formulação de recomendações que contribuam com a segurança. Segundo ele, quando um colaborador ingressa em uma organização, carrega com ele interpretações passadas e visões de mundo. Tudo isso, informa a maneira como agirá, inclusive em momentos imprevistos.

Por isso, Santos entende que, além de estratégias quantitativas para identificar regularidades a respeito dos participantes do meio estudado, as qualitativas, que contemplem a biografia e as interpretações, são um ganho para uma pesquisa interdisciplinar. “Os métodos vão mostrar as experiências das pessoas nos seus ambientes de trabalho”, destaca.

Trajetória biográfica

Nos casos de análises de acidentes, entender como esses temas perpassam a trajetória biográfica dos trabalhadores e como eles encaram essas situações podem mostrar tipos de ações diante do risco. “Não significa necessariamente que a maneira como eles agiram no passado, será a mesma no futuro, mas reunimos elementos para compreender como essas pessoas interpretaram essas situações”, explica.

Além disso, os dados estão relacionados a eventos concretos e não normativos. O conhecimento gerado é como de fato os pesquisados reagiram e não como deveriam, ou era esperado, reagir.

Os resultados servem como subsídios para a formulação de intervenções com o objetivo de minimizar as situações de risco. Aliados às informações trazidas por outras disciplinas, a compreensão do campo estudado se torna mais abrangente e concreta.

No HFACTORS, a Sociologia atua junto com outras áreas do conhecimento com uma perspectiva de Fatores Humanos. Desde 2017, o grupo tem utilizado diferentes métodos para trabalhar com temas como segurança, resiliência e organizações complexas.

Confira no nosso canal do YouTube o vídeo do professor Hermílio Santos falando sobre o tema.

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Democratização do conhecimento: compartilhar dados de pesquisas exige adaptação da linguagem

Crédito: Christin Hume/Unsplash

Um grande desafio para pesquisadores é tornar público o conhecimento normalmente restrito a determinadas áreas e disciplinas. Os dados reproduzidos em revistas acadêmicas costumam ser de difícil acesso e compreensão para a população geral. Segundo a mestre em gestão do conhecimento e doutoranda da Universidade de Málaga na Espanha Jhoana Raquel Córdova Camacho, a ciência tem o poder de solucionar problemas. Por isso, não deve ficar restrita a apenas uma parte da sociedade.  

Para ela, que é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Técnica Particular de Loja no Equador, o uso da linguagem mais simples – mas não simplória – contribui para a expansão e confiabilidade dos resultados. “O pesquisador precisa de espaço e também ser pauta de discussões de meios de comunicação, além de despertar o interesse dos estudantes”, observa.  

Busca de clareza 

Córdova ressalta que tornar a pesquisa como um instrumento de conhecimento e visibilidade potencializa o crescimento pessoal e profissional de quem desenvolveu determinado estudo. “A pesquisa é uma forma de compreender a ciência e também uma forma de ver o mundo”, salienta Córdova.  

A busca da clareza e, até mesmo, a “tradução” de conceitos técnicos para um texto compreensível a várias esferas sociais é positivo para facilitar o aprendizado de alunos de graduação, por exemplo, que ainda não estão familiarizados com determinados termos. A professora entende que as investigações científicas são feitas de pessoas para pessoas e é importante a busca pela pluraridade. Também é preciso preparo e domínio do que está sendo externado, de forma a garantir a relação do emissor-receptor.  

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Aplicação de Fatores Humanos na aviação é vista como referência

Foto: Ross Parmly/Unsplash

Uma das primeiras áreas a utilizar Fatores Humanos como uma abordagem sistêmica para trabalhar com segurança, a aviação se tornou referência na aplicação de uma nova visão espalhada para outros setores. Se antes as organizações identificavam problemas e soluções de forma segmentada, agora a complexidade das operações é reconhecida e as partes são tratadas como indissociáveis com repercussão no todo. 

O coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da PUCRS e membro do HFACTORS, Lucas Fogaça, conta que as pesquisas na área da aviação com esse enfoque tiveram seus primeiros ensaios na Segunda Guerra Mundial, mas ganharam força a partir do começo dos anos 2000, com abordagens mais sociológicas envolvendo cultura justa e engenharia de resiliência. “O foco progressivamente deixou de ser a culpabilidade dos operadores e a busca por respostas passou a se voltar para o sistema como um todo – envolvendo desde os operadores de linha de frente, passando pelas interações organizacionais e até a regulação”, destaca.   

Considerando os princípios de Fatores Humanos, o erro não deve ser visto como foco de insegurança e sim um reflexo das condições organizacionais, de gestão, de trabalho e tudo o que envolve as operações. “Estamos em uma época em que os Fatores Humanos remetem aos estudos daquilo que influencia a performance humana, incluindo as tecnologias, as estruturas, as pressões econômicas etc.”, complementa o mestrando e pesquisador do núcleo HFACTORS Rafael Trancoso.

Nas investigações de acidentes, segundo Trancoso, a compreensão do contexto colabora para o entendimento das tomadas de decisão. “É interessante entender o porquê o piloto pensou como pensou e agiu como agiu”, lembra, acrescentando que os elementos cognitivos, organizacionais e ambientais estavam em interação e podem ter levado o trabalhador a tomar determinada decisão, que se apresentou como a mais adequada naquele momento. 

Ao adotar uma abordagem de Fatores Humanos, o discurso de que um evento ocorreu pelo erro de um indivíduo perde força. “Começamos a enxergar que, se uma pessoa não cumpriu o procedimento, é porque talvez o procedimento não fizesse sentido ou não fosse aplicável. Se o sujeito foi treinado para aquilo e não conseguiu executar a tarefa, talvez o treinamento não estivesse adequado, ou talvez a situação exceda a capacidade do sistema”, declara Fogaça.

Aplicação para outras áreas 

A interação do indivíduo com o trabalho, os equipamentos e os procedimentos mostram a elevação do nível de complexidade de atividades e a demanda por condições de segurança e eficiência nos processos. A aviação tem estimulado, segundo Trancoso, uma abertura para que outros setores busquem e prezem pelas condições de trabalho e por habilidades. “O Crew Resource Management (CRM) é um exemplo de que outras organizações têm buscado na aviação o treinamento e a capacitação de equipe” explica. 

Surgido a partir dos anos 1980, o CRM representa o esforço de entender o porquê alguns acidentes estariam ocorrendo, mesmo não havendo falhas técnicas nas aeronaves. Houve uma evolução desde cockpit (focado nos recursos da cabine de comando), passando pelo crew (pilotos e comissários) até o corporate resource management (recursos de toda a organização). “Se entende que muitas das decisões estão fora do ambiente de voo, como por exemplo, em centros de operação e nas redes de contato e trabalho tecidos a partir daí, como controle de tráfego aéreo, engenharia, operações, alta direção, fabricantes, auxílio via tele-medicina etc..”, ressalta Fogaça.

O que era trazido para a aviação em termos de segurança operacional e de sistema foi considerado como positivo para outros setores. Por isso, muitas equipes de hospitais e da indústria de óleo e gás, por exemplo, começaram a utilizar a aviação como exemplo para algumas atividades, como a realização dos cursos de CRM.  

Apesar de os fundamentos de Fatores Humanos já estarem difundidos, ainda não são predominantes em todo o setor produtivo. As práticas mais tradicionais com aplicação de técnicas e modelos diretos e relativamente simples e rápidos de serem implementados, como checklist e manuais, ainda estão muito presentes. Elas, no entanto, relativizam a complexidade, tratando os sistemas como previsíveis. “Quando reduzimos uma realidade complexa e não mapeável a um modelo, muitas questões ficam de fora, como os aspectos sociais”, observa Fogaça. De acordo com ele, o social pesa tanto quanto o técnico na questão da segurança.

A proposta de Fatores Humanos, mais sociológica e sistêmica, considera as relações e os significados implícitos e explícitos para a implementação nas operações, na regulação, na confecção de procedimentos e nas tomadas de decisão ao longo de toda a hierarquia. “Envolve mudança, ou construção de uma cultura associada. Isso dá trabalho e não é tão fácil de auditar”, salienta, lembrando que, por isso, as práticas demoram e são difíceis de implementar.  Mesmo na aviação, área em que a abordagem sistêmica já é consenso, a prevenção ainda precisa avançar e considerar aspectos políticos sobre os procedimentos, por exemplo.